coloquei as roupas na mochila depois de tomar um banho quente naquela casa de banho partilhada. a minha cabine era só mais uma, dentre várias, e deixei-me ficar de pé. senti a água quente a escorrer pelo meu rosto e pelas minhas costas, a garganta em nó, enquanto a pele queimava em brasa com o calor da água que, desesperadamente, eu esfregava para limpar o suor e o sal.
vesti-me, mais ou menos com pressa, despedi-me da colega de quarto que estava na cama ao lado e com quem troquei algumas conversas na manhã anterior. saí do quarto, deixei o cartão na receção e fiz o check-out. enquanto isso, a porta que dava para a rua estava aberta, no lado oposto ao balcão, com a luz do sol a entrar violentamente pelo vidro. pessoas aleatórias entram e saem da sala. dirigi-me, apressadamente, para a saída e a minha pele começou a arder com o calor.
olhei ao redor, mas não observei. não reparei em ninguém e ninguém reparou em mim.
estava perdido (estou?).
no dia anterior, deitado na areia, sem saber para onde iria e para onde fui, senti-me esmagado pelo vazio e pela camada fina de ar que fazia pressão contra o meu corpo, de súbito, já não me reconheço mais. sou o reflexo das minhas escolhas e deixei-me condicionar por tudo o que fiz até aqui. ouvi as ondas e a minha respiração.
no dia anterior, deitado na areia, sem saber para onde iria e para onde fui, senti-me esmagado pelo vazio e pela camada fina de ar que fazia pressão contra o meu corpo, de súbito, já não me reconheço mais. sou o reflexo das minhas escolhas e deixei-me condicionar por tudo o que fiz até aqui. ouvi as ondas e a minha respiração.
entrei na água e nadei. batia os braços, em nado de bruços e em técnica, deixei-me boiar de barriga para cima e pensei se seria má ideia deixar-me ficar.
sobrevivi e, no dia seguinte, estou de mochila às costas, pronto para regressar. olhei para o relógio e ainda faltam algumas horas para o transporte de volta a casa. as horas passaram-se e eu voltei.
sinto falta de coisas simples. sinto falta de deitar a cabeça numa toalha, num dia ensolarado, e ouvir os pássaros num jardim, abraçar as árvores, molhar a cara em água fria e olhar, no espelho, o meu reflexo satisfeito com o que vejo.
fiz o check-out, mas continuo lá, com a cabeça mais ou menos fora da água, à espera que a maré me leve. estou banhado em sal e luz.
se fosses capaz de olhar para mim e reparar que estou aqui e lá e em todos os lugares e em lugar nenhum. se fosses capaz de abraçar-me com o calor dos braços que queimam como mil sóis. se fosses capaz de ouvir-me onde ninguém mais consegue ouvir. se fosses capaz de regar-me e podar-me.
se fosses capaz. (serei eu capaz?)
mas, naquela tarde, o sol pôs-se e eu continuei a alimentar a esperança de que, no meio disto tudo, ainda há sementes que valem a nossa vida e o tanto que possamos nutri-las. apesar de tudo, não quero, ou não me faz sentido, abrir mão deste grande nós que habita a terra.
(um dia ruim não é uma vida ruim).
— Lano
❤️🩹
ReplyDeleteQue texto lindo! 💜
ReplyDeleteObrigado Lano ! As you have shared that you find a meaningful expression in English, I hope you won’t mind my thoughts this way. Your capture of these moments is powerful, vivid and searing, yet also hopeful. Your pain and emotion are so palpable in these words. They are evocative and I felt myself in all the lines. Expressing one’s self as you have is not easy but the catharsis afterward can be so healing. Thank you so much for sharing in such a brave and transparent way ❤️ (MRC)
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